Soares dá indicação de voto em Alegre à primeira volta
É a única estratégia de esquerda credível e é um acto de dignificação da política e do sistema político actual.[1] Que cabe a Soares perceber e realizar, ou não.
A situação política actual balança entre a comédia e a tragédia. Ironicamente, cabe a um dos fundadores do regime democrático o lugar chave, em que ele próprio se quiz incluir, cheirando que se tratava de uma oportunidade de protagonismo, embora não se tenha apercebido da armadilha.
Para chegar a estas conclusões não é preciso saber de política. É preciso observar a situação a um distância razoável, como diz o anúncio de um banco, e evitar fazer juízos sobre a condição subjectiva com que cada actor político está nesta campanha eleitoral.
A política portuguesa tornou-se um chiqueiro, um atoleiro, um embuste, na tradição do que foi a política da segunda metade do século XX. O que poderíamos dizer ser uma política “para inglês ver”, forma de excluir os cidadãos de participarem na vida política. A “democracia” de Salazar foi contestada por comunistas e pela esquerda mais tarde representada por Soares, que hesitavam concorrer nas farsas eleitorais. Isso é conhecido. Depois do 25 de Novembro, a ressaca revolucionário fez com que uma parte significativa dos portugueses passasse a odiar a política e a ideologia, que passaram a ser palavras com sentido único pejurativo – como de resto é patente nesta campanha eleitoral através da discussão pejurativa sobre quem é ou não político e sobre a partidocracia. A fragilidade dos partidos e o desequilíbrio entre a “organização”[2] do PCP e os outros, revelou-se um problema para o processo normalização pós-revolucionário, que justificou a política de “todo o poder aos partidos”, com resultados hoje evidentes na colonização do aparelho de estado por ordas de aparatiks partidários que arranjam entre si uma divisão de trabalho para explorarem em proveito próprio as necessidades de financiar as actividades partidárias, através da canalização ilegal de fundos usando esquemas já bastamente denunciados e logo abafados por todos os partidos, com excepção do Bloco de Esquerda – o que faz dele uma espécie de consciência moral do sistema. O isolamento político do BE nas denúncias que faz de casos concretos de corrupção evidentes à luz do dia e de fuga ao fisco é prova suficiente.
Nas eleições autárquicas, uma das perguntas que foi feita aos portugueses foi que fazer com os vigaristas e criminosos que concorrem para ocupar posições nas Câmaras Municipais? A resposta foi dada: não há diferença entre os que foram apanhados nas malhas de uma justiça desacreditada e os que não o foram só porque têm apoios partidários. Depois vieram as eleições parlamentares em que não estiveram, nem poderiam estar em causa os partidos. Esteve em causa a radicalização santanista da irresponsabilidade, que ingenuamente continua a reclamar não ser diferente do actual Primeiro Ministro, sem compreender que a diferença está na encenação: o governo não pode parecer um grupo de tios e tias a desenvolver as suas tricas à mesa do conselho de ministros. É demais!
Nas actuais campanhas presidenciais está em causa manifestar publicamente a capacidade de fogo partidária para ocupar civilizadamente o campo da política, tal como ela pode ser entendida numa democracia ocidental, para credibilizar o sistema, como afirmaram vários dos agentes políticos, certamente de boa fé. Nessa mobilização disseram presente todos os lideres de esquerda e nenhum de direita. Para essa mobilização se voluntariaram um número de outsiders incomum (sete ou oito) que desta vez não tiveram tempo de antena, nem a brincar (o que dá a noção da tensão política que se vive nos mentideros): os candidatos salvadores do sistema já eram muitos e os meios de comunicação social têm a intuição, se não a consciência, de que se trata de uma curva apertada, politicamente falando. Porém, os factos são os factos, independentemente da credibilidade dos candidatos e das respectivas intenções.
Os factos são que o campo da direita, como acontece sempre que há crise, encolhe-se, acobarda-se, tenta passar desapercebida, como o fazem os caloteiros (ou pedintes) sabendo-se descobertos e vendo o seu modo de vida em risco. Depois dos fracassos morais e políticos espectaculares de Santana e Portas, apostam na social-democracia económica popular (leia-se, abertura à desregulação interna mais às políticas de coesão da Europa para Portugal, numa palavra: venha a nós os vossos dinheiros) de Cavaco Silva. Voltar ao passado, fazer rewind, voltar a ver o DVD, é, de facto, o fio máximo de pensamento imputável a estas sensibilidades. À esquerda a formatura é rígida, com excepção do PS, partido com maioria absoluta para continuar as políticas de instabilidade que têm caracterizado Portugal democrático – ao inverso do que se passa em Espanha. Por isso se compreende a política de aliança da direcção do partido com o PSD, através do respectivo candidato à Presidência da República, para alargar a sua base de apoio institucional: obter condições de estabilidade reclamada por Balsemão, por exemplo. Tomando por certa (e desejável) a inoperância política dos cidadãos organizados ou isolados, resta imaginar a melhor arquitectura institucional e partidária para organizar a estabilidade pelo silenciamento (amamentado) de eventuais oposições. Parece pouco democrático mas é assim que se pensa. Para fazer esta cama, é relevante a declaração de independência partidária de Cavaco Silva. Quando o afirma não é para enganar o povo eleitor: esse está já enganado pela própria estrutura eleitoral desenhada pelos partidos e pela comunicação social de encenar uma falsa disputa entre aliados: PSD e PS, Cavaco e Soares. É, isso sim, para manifestar e confirmar a sua disponibilidade para o jogo que se segue: a estabilização do centrão, cujo fracasso foi experimentado num governo de Soares, noutros tempos. Prova disso mesmo é a impossibilidade política dos candidatos (todos) de se referirem utilmente às nomeações partidárias, ao arrepio da tradição do sistema, para cargos lucrativos e/ou de suposta independência política. Sejam quais forem os resultados, tal assunto será tabu.
Soares está na posição do lobo vestido de cordeiro, para o sacrifício (real! Percebe-se a ironia das palavras?). Muitos comentadores o disseram aquando do anúncio da sua candidatura: vai ficar mal na fotografia. E hoje são claros (descarados?) os apelos da direcção do PS para que os seus apoiantes votem Cavaco e não em Soares, como são claras as sondagens no sentido de confirmar essa disposição do eleitorado. O papel de Soares é disputar com Alegre os votos dirigidos ao PS que se sentem mal no lodaçal da política à portuguesa, que não lidam bem com a falta de princípios e com o relativismo ideológico mais absoluto. Os que não querm abrir o flanco às políticas oportunistas que têm vindo a manifestar-se objectivamente intoleráveis para o país, seja política, económica, financeira ou moralmente.
Os dois oponentes internos da direcção do PS que veio a obter a maioria absoluta no parlamento serão os únicos culpados – um à boca pequena e outro à boca larga – da derrota gizada pela própria direcção do partido nas Presidenciais. O que coloca um outro problema interessante, que talvez um dia se possa vir a descobrir: quem tramou a direcção de Ferro Rodrigues senão o próprio PS, que pelos vistos actualmente tão bem interpreta e segue os sinais de fumo da actual direcção?[3] Com Ferro Rodrigues jamais seria possível imaginar o actual quadro político. E Ferro Rodrigues foi surpreendido, como Alegre o foi mais recentemente, com o vazio político criado à volta da liderança do PS. Aceitou o lugar de secretário-geral primeiro e depois – disse – é que se conseguiu entusiasmar. Acabou por sair mal na fotografia. Alegre sentiu-se mais empenhado – palavras suas – quando soube estar livre do “apoio” do partido, que por razões emocionais não perdoa – sentimento que o tem fragilizado na pré-campanha.
O pos-modernismo político aliou-se ao caciquismo e às mafias (em português corporações) para produzir o monstro: cinco candidatos presidenciais de esquerda disputam um lugar para dar estabilidade às políticas de direita anunciadas pelo governo, ao arrepio das promessas eleitorais para a Assembleia da República e, evidentemente, ao arrepio daquilo que se vier a dizer na campanha eleitoral para a Presidência. É natural que assim, pela primeira vez, o povo português escolha o candidato mais à direita. É que se assim não for, os políticos – sabemos todos – terão mais desculpas para justificarem a instabilização política. O que o povo português não quer e de que tem procurado fugir, nomeadamente oferecendo maiorias absolutas a quem as pedir, apesar da improbabilidade do sistema de Hondt produzir tais resultados. E aqui está a maior fragilidade do sistema actual: porque o povo português tem escassez de formas de participação política eficazes fora do quadros dos partidos – vejam-se as condições de influenciar políticas públicas por parte de movimentos cívicos em Portugal, comparadas com o que acontece em Espanha ou outros países europeus – é através do voto que o povo procura concensualizar interesses que os políticos, eles próprios, se têm mostrado incapazes de organizar entre si. O povo tem sido mais patriótico e sábio – mesmo que dominado – do que os políticos, cuja fama de oportunistas tem aqui uma razão de peso.
Lançados os dados, só um golpe de asa mudará o descambar destas eleições presidenciais para o aprofundamento do pântano político e moral por mais 4 anos. Dada a rigidez partidária de todas as formações em presença, excepto o PS, dada a impossibilidade prática de Alegre apelar ao voto em Soares, que seria reducionista da amplitude dos votos contra Cavaco, resta explorar a hipótese de Soares anunciar a sua indicação de voto em Alegre enquanto a direcção do PS não manifestar politicamente o seu empenho em afirmar uma posição política clarificadora e moralmente aceitável nestas eleições.
Soares está numa posição muito difícil, pessoal e politicamente. Mas está nessa posição porque se acha capaz de antecipar o jogo dos seus adversários. Esqueceu-se de que, embora não tenha disso consciência e se julgue único, com alguma razão, deixou escola. São os seus seguidores – pelo menos no “pragmatismo” político capaz de caracterizar um “animal” – que lhe organizaram a armadilha! Será capaz de se livrar dela? Se o for poderia, além do mais, cumprir um desígnio patriótico de moralização do sistema.[4]
[1] Por sistema entende-se aqui o conjunto práticas políticas instituídas e pessoal político que lhe dá corpo.
[2] Pessoalmente entendo ser mais correcto falar em métodos de trabalho, em vez de organização: o contraponto entre a eficácia desmobilizadora da participação politica do centralismo democrático e a dos outros partidos.
[3] Não me refiro aqui aos processos crime mas antes ao seu uso para fins políticos. Não me refiro também a intenções ou manipulações, que evidentemente existem mas cujos agentes não têm – geralmente não podem ter – consciência do conjunto do xadrez político.
[4] O facto de pessoalmente não acreditar que isso venha a acontecer, não me impede de tomar a posição que aqui deixo, o que devo à recusa da “política do quanto pior melhor” que tantas vezes Soares denunciou e em que, ironicamente, agora é protagonista contra vontade (imagino).

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