A questão ideológica
Num profunda crise do capitalismo globalizado, a emergente oposição dos movimentos ligados ao Forum Social Mundial viu-se tolhida, primeiro pela declaração de guerra ao terrorismo – que recolocou o problema do exercício da violência política – e depois pelo retundo fracasso do Partido dos Trabalhadores no plano ético. À sociedade em rede, do conhecimento, das tecnologias de informação – expressões da ideologia de descontextualização e dispersão dos riscos globalizados da modernização – impôs-se a sociedade corrupta, belicista e penal que opõe famílias ex-aliadas numa escalada à margem da vida dos povos, como na Idade Média. Os movimentos sociais altamente especializados e qualificados, utilizadores e mobilizadores da democracia política e da transparência administrativa, pública e privada, terão agora de sobreviver sem porto de abrigo e debaixo de fogo, literalmente.
É esse o significado profundo da emergência das discussões políticas sobre a legitimidade da tortura e das operações políticas clandestinas em países estrangeiros. Claro que há quem continue a pensar dentro do sistema, como se nada se tenha alterado com a guerra ao terrorismo. Alguns desses dizem que são os aspectos financeiros que é preciso melhorar, porque foi tudo o que aprenderam de política. Outros dizem que são os aspectos económicos da concorrência globalizada e da qualificação do trabalho, como se os novos recortes dos mercados não estivessem agora mesmo a ser desenhados contando as canhoteiras através dos sistemas de espionagem, de que o Echelon é o mais poderoso. Outros falam de que se trata de um problema de legitimidade, já que as instituições deixaram de corresponder à confiança desejável em democracia, como se outras instituições e as mesmas gentes não acabassem por dar nas mesmas limitações.
Uma crise tão profunda como a que vivemos, porém, para além dos aspectos referidos depende sobretudo da moral popular, de que o exemplo do processo do tratado constitucional é elucidativo. De que a ofensiva política neo-liberal, pressentindo a desorientação do campo adversário é sintoma evidente. De que o tocar a recolher das corporações empresariais, profissionais, de funcionários e de cliques partidárias são outros exemplos. Quem estiver só vai molhar-se, como vimos acontecer recentemente aos jovens suburbanos de França. E a chuva é ácida.
Quem defender que a questão é económica, financeira, tecnológica, terá que explicar como acontece que, após mais de 30 anos em que nos disseram que estávamos a aproximar-nos do modo de vida europeu, bastaram cinco anos de estagnação para que a corrupção económica e moral das instituições nos atirasse para a fossa, de tal modo que já deixou de ser realista esperar receber o dinheiro que obrigados fomos depositando para a reforma? Porque é que temos que trabalhar cada vez mais por cada vez menos? Não estarão a fazer connosco o que já fazem com os povos de África? Quanto mais riquezas mais pobreza e miséria? Então a ciência e a tecnologia não servem (deixaram de servir) a emancipação do trabalho?
Onde tudo é mais evidente é na reacção ao anúncio da ONU da necessidade da Europa receber 19 milhões de novos imigrantes (200 mil por ano até 2025 para Portugal) para sustentar a economia e a segurança social. Face a esta perspectiva, governos e seus povos envelhecidos tremeram de medo e organizaram o fecho das fronteiras. E o fechar de olhos às práticas contra os direitos humanos nos EUA e também no norte de África. Mas o que precisamos de fazer, se queremos sobreviver, é – evidentemente – encontrar a melhor maneira de sermos hospitaleiros para os imigrantes económicos que se queiram instalar entre nós, e colher deles a força de viver que o medo nos tolhe cada vez mais. Alternativamente devemos contratar todos os mercenários do mundo para nos servirem de guarda costas: o que satisfará a nossa convicção de que tudo se resolve com dinheiro, enquanto a nossa vida se tornará cada vez mais degradada e degradante.

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