Tuesday, November 29, 2005

O ar do mau tempo

No verão, um episódio pirata importado do Brasil, manipulou a polícia e as televisões, trouxe à flor da pele o racismo português, que os académicos por vezes se entretêm a discutir se existe ou se não existe. O arrastão serviu para que todos pudéssemos observar expressões culturais explícitas do racismo que vai em nós.
O facto de ser tudo, afinal, uma encenação e um insulto – com direito a desmentido, significativamente equívoco das autoridades – nem por isso permitiu reavaliar a situação que causou tais excessos de apreciação depreciativa dos membros mais escuros (ou mesmo pretos) da nossa sociedade que andam de comboio. Nas leituras públicas do desmentido, a linguagem equívoca permitiu a muitos jornalistas – inconformados com a sua própria imagem de mensageiros de tudo o que lhes ponham no colo – duvidarem do próprio desmentido, através de comentários que lhes salvassem a face. O mais contundente dos comentários, com a colaboração da Companhia dos caminhos de ferro, foi a apresentação de imagens de assaltos violentos da linha de Sintra.
O autor destas linhas é preto de 4ª geração. Confunde-se com o público porque as misturas já são muitas e principalmente porque o estatuto social permite evitar os comboios. Mas nem por isso deixa de sentir a injustiça imprópria de um Estado de Direito de, para salvar a face de uma burrada haja quem, com responsabilidades nos media (no Estado e na CP), em vez de assumir os erros e ultrapassá-los, aprofunde o disparate, como quem diz, se não foste tu o criminoso, foi o teu primo anteontem.
Numa altura em que todos acusam todos em grupo, juízes, jornalistas, advogados, políticos, ministério público, gestores de futebol, administradores de empresas públicas ou privadas, há os que não têm maneira de se defenderem … quando decidem ir à praia. E saem fotografados a fugir da polícia com os seus haveres pendurados das mãos, com caras pretas que Deus lhes deu, feitos ladrões de reality show não pago.
Vêm estas linhas tardias a propósito do que se passa na França do estado de sítio, no rescaldo da revolta juvenil dos subúrbios. São terroristas? São fundamentalistas? São traficantes? São estrangeiros? São islâmicos? São a 2ª geração? Quem quer saber se todas as conjecturas racistas multiplicadas pelos comentadores sem ética, histéricos de desorientação, não têm um mínimo de aderência à realidade facilmente acessível? O fundamental é reduzir os principais problemas políticos do nosso tempo a casos de polícia. Por vezes com o pretexto cínico de antecipação política aos neo-nazis e aos fascistas, como de facto aconteceu em França: Le Pen está praticamente desempregado, pois as suas ideias xenófobas são as ideias adoptadas pelo candidato presidencial mais popular.
Compreende-se a histeria: o envelhecimento radical da população europeia torna a maioria dos eleitores muitos susceptíveis às ameaças e dependentes dos seus alegados defensores. É preciso dizer aos mais velhos que a política securitária é avançada pelos mesmos que lhes querem reduzir as reformas, serviços de saúde e sociais. Porque querem reduzir as funções do Estado às funções violentas, e para poderem alimentar a máquina de guerra que estimam necessária para a luta de classes que estão a organizar precisam de muito mais dinheiro: o dinheiro utilizado nos serviços do Estado Social, incluindo os de apoio à terceira idade. Mas principalmente é preciso explicar se os mais velhos não fizeram filhos com o intuito de beneficiarem sozinhos da sociedade de consumo, está na hora de os adoptar, para que o sistema político e económico não continue a ruir: precisamos de imigrantes aos milhões, a que devemos aprender a tratar como filhos e seguros de vida. E não como ameaças.
A nossa melhor defesa estratégica da civilização ocidental não será a de armar policias, espiões, fundamentalistas sem moral e guerreiros sem escrúpulos. De que servirá montar um esquema defensivo contra os estrangeiros para defender o nosso modo de vida quando quem o quer destruir são os nossos próprios governantes, para disso tirarem proveitos? A nossa melhor estratégia é acolher os povos do mundo, no nosso território e noutros territórios que se possam conquistar para a paz e o convívio modernizador, como facilitadores de modernização para o bem-estar, tal qual o aprendemos a fazer até agora, já que o que nos anunciam é o fim desses “privilégios”.
Quando os histéricos de serviço nos informam que a crescente produtividade económica vais deixar de permitir a manutenção dos níveis de vida de que temos usufruído, porque raio de carga de água é que lhes damos ouvidos? É porque estão ao mesmo tempo a dizer-nos que são os estrangeiros (agora a moda é dos chineses, e se eles são muitos …) que nos estão a explorar (?!?) na nossa terra, a tirar-nos os empregos, e na sua própria terra (por trabalharem quase de borla e sem sindicatos) por trabalharem como imigrantes? Já tinha ouvido dizer que não há mercados sem guerras, ou numa versão mais aristocrática, não há almoços grátis. Mas mobilizarem os velhos europeus para a guerra, avisando-os que o fazem para virem a viver pior no futuro, é preciso ter lata. Mas que compensa, isso tem compensado!
Em França, depois de todas as provocações dirigidas contra os jovens que vivem humilhados desde que nascem e a assistir às humilhações quotidianas reservadas aos seus pais, depois de todas as análises torpes, a verdade não tem sido suficiente (como o foi em Espanha que derrubou Aznar por azniar) para pôr em causa as políticas xenófobas. O inverso parece ser o sentido das notícias que nos dão conta da manutenção da popularidade e dos poderes do ministro de quem os jovens pediram a demissão. Nos bairros voltou a normalidade da centena de carros incendiados por semana, que já se vivia anteriormente à revolta. Tudo sob controlo, portanto. Basta saber a quem nos referimos quando se fala em controlo: os jovens das periferias ou as multidões de velhos votantes?

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